A sociedade contemporânea, particularmente desde há uns anos a esta parte, parece ter uma obsessão cada vez mais evidente com a linguagem do empoderamento. Vivemos na era absoluta do "eu faço o que quero com o meu corpo" transformado em mantra universal e, proclamado como suposta prova de libertação sexual e autonomia pessoal. Dentro deste panorama, plataformas como o OnlyFans surgem não apenas como ferramentas de monetização de conteúdo adulto, mas elevadas à fasquia de ícone cultural, de uma narrativa que se pretende revolucionária: a do empreendedorismo sexual feminino! Porém, esta revolução é, na sua essência, uma miragem... mera repetição de velhos padrões, com nova estética e nova retórica (certamente), mas com a mesma estrutura e mecanismos de poder e exploração associados!
A mais velha profissão do mundo (como lhe chamam) não muda apenas porque se usa uma nova maquilhagem. A prostituição tem sido uma constante antropológica, existindo sob diversas formas desde tempos imemoriais, o que o OnlyFans oferece, é apenas e só uma nova roupagem digital para esta prática milenar. Trata-se da adaptação da sexualidade ao mercado global do capitalismo, a comoditização do corpo na era do ecrã, onde o desejo é mediado por subscrições, cliques e promoções (como se de um talho se tratasse!)
A forma pode ter mudado — já não falamos do bordel físico, mas sim do perfil personalizado, curado e estetizado para um nicho, ou, à vontade do freguês — contudo, o conteúdo permanece essencialmente o mesmo: corpos que se vendem e a velha e boa sexualidade performativa que se molda às expectativas do consumidor! Não é de admirar que o OnlyFans seja tão lucrativo: ele junta a dinâmica do voyeurismo de massas à promessa de intimidade, com uma economia de escala que torna possível o que antes exigia a presença física.
O mito do empoderamento entra aqui como uma narrativa extremamente conveniente, pois a ideia de que este fenómeno representa uma forma de empoderamento feminino é, em grande medida, uma construção ideológica que serve interesses muito específicos. À superfície, pode até parecer imensamente progressista: mulheres (e homens, mas sobretudo mulheres) a controlar a sua própria imagem, a sua própria narrativa, o seu próprio corpo. Contudo, esta "liberdade" aparente, é atravessada por múltiplas camadas de condicionamento económico, social e simbólico.
Em primeiro lugar, há que reconhecer que a escolha de entrar neste mercado raramente se dá num vazio social. As mulheres que o fazem, não o fazem sempre por pura vontade emancipatória, nem sequer na sua maioria. Fazem-no muitas vezes por necessidade financeira, falta de oportunidades, precariedade estrutural, pressões subtis de validação social... num mundo onde o valor feminino continua a ser medido (de forma implícita ou explícita) pela capacidade de atrair e agradar o homem!
Em segundo lugar, o "empoderamento" oferecido por estas plataformas constitui-se no mínimo como paradoxal: enquanto se proclama a liberdade de se expor, essa exposição está sempre subordinada ao olhar masculino (praticamente como métrica absoluta), ao mercado e à lógica da rentabilização. Não há, portanto, verdadeira autonomia, apenas uma performance de autonomia adaptada às exigências do consumo. Uma mulher pode gabar-se da sua independência, quantas vezes quiser, pode proclamar ao mundo que "está no controlo" até que a voz lhe doa... mas é o subscritor, em última instância, que dita o que vende e o que não vende! Ponto final.
É precisamente neste ponto que entra em jogo a linguagem da ilusão e a semântica do vazio. Termos como: "libertação sexual", "empoderamento" ou "empreendedorismo" tornam-se escudos discursivos que protegem, deliberadamente, o fenómeno de qualquer tentativa de crítica mais profunda. Criam-se narrativas que parecem modernas, mas que, no fundo, somente reiteram a domesticação do desejo dentro dos mesmos moldes patriarcais e capitalistas!
A linguagem, então, transforma-se numa espécie de anestesia ética! Evita-se nomear o que está realmente em causa: a perpetuação de estruturas simbólicas em que o corpo da mulher é moeda de troca, o erotismo é transformado em produto, e a liberdade é confundida com autoexposição. O feminismo, neste contexto, torna-se uma etiqueta descartável, apropriada como selo de validação, mas completamente esvaziada do seu conteúdo crítico, revolucionário, político ou verdadeiramente transformador!
É preciso dizê-lo com franqueza: chamar a isto revolução, é não entender minimamente o seu propósito. É confundir realidade com simulacros, confundir trends sociais com a transformação da cultura. É tomar como libertador um gesto que, no seu âmago, se encaixa perfeitamente na lógica dominante do sistema que se pretende combater! E é por isso que a semântica exterior desta pseudo-libertação é, em si, a implosão e prova da sua nulidade! Pouco mais que ruído, espuma sobre um mar de repetições.
Um dos aspetos mais preocupantes desta nova encarnação da prostituição é o modo como molda e reforça o olhar do outro, mas também o olhar de si sobre si. Aqui julgo ser importante focarmo-nos na genealogia do olhar para explicar a estética da validação. A mulher transforma-se em curadora da sua própria imagem erótica, aprendendo a ver-se (e a vender-se) como objeto desejante e desejável, segundo os parâmetros do mercado. A vaidade digital, alimentada pelo algoritmo, transforma-se numa forma de escravidão disfarçada de liberdade!
O que parece ser uma escolha é, muitas vezes, o resultado de uma imposição invisível: a necessidade de se ser vista, desejada e validada! E este desejo de validação é profundamente enraizado em processos históricos e culturais que nos ensinaram que o valor da mulher reside, em larga medida, no seu poder de atração (inclusive, por culpa da própria mulher!) O OnlyFans, como outras plataformas não declaradamente sexuais capitalizam esse ensinamento, oferecendo a ilusão de controlo sobre uma lógica que é, na verdade, anterior e mais poderosa do que a própria usuária.
Quanto a este retrocesso disfarçado de vanguarda, importa também lembrar aqui que, esta suposta revolução chega com décadas de atraso. Nos anos 60 e 70, figuras como Simone de Beauvoir, Angela Davis, Shulamith Firestone ou Kate Millett lutaram precisamente para libertar o corpo feminino da condição de mercadoria. Hoje, muitas das mulheres que utilizam estas plataformas ignoram ou desvalorizam esse legado, acreditando que estão a fazer algo novo, radical, pioneiro...
Mas o que há de radical em vender o próprio corpo? O que há de revolucionário em transformar o erotismo numa mercadoria digital? A história já viu isto antes, os homens conhecem-na bem, com outras roupagens, em outros contextos, mas sempre com o mesmo desfecho: a mulher como objeto do desejo, o homem como consumidor, e o sistema a lucrar com ambos!
Vejam, para lá da ilusão existe o desafio da liberdade autêntica, mas é necessário primeiro, recuperar uma visão mais exigente de liberdade. Uma liberdade que não se esgote na escolha individual, mas que se fundamente numa crítica estrutural à forma como o desejo, o corpo e a identidade são moldados por forças invisíveis. A verdadeira liberdade não é fazer o que se quer, mas saber por que se quer o que se quer!
Dizer que o OnlyFans é apenas mais uma forma de sobrevivência no capitalismo tardio até pode ser verdade, mas fazer disso um hino à libertação feminina é, no mínimo, desonesto. É preciso recusar esta retórica sedutora que transforma a submissão em estilo de vida, a exposição em poder e a precariedade em glamour. Nem tudo o que reluz é ouro, neste caso, nem tudo o que brilha no ecrã é liberdade... longe disso!
Estaria errado em dizer que o corpo, especialmente o corpo feminino sempre foi visto como campo de batalha simbólico? Pois o corpo da mulher continua a ser, no século XXI, ainda o campo de batalha simbólico onde se joga a tensão entre liberdade e dominação, entre desejo e mercado, entre identidade e espetáculo. O OnlyFans é apenas mais um episódio nessa longa narrativa de exploração ressignificada, reembalada e revendida com novos slogans e estética digital mais apelativa.
Notem, não se trata de condenar quem recorre a estas plataformas – cada um faz as escolhas que a vida permite, ou que lhe dá mais jeito no momento –, mas de denunciar o discurso que pretende transformar estas escolhas em bandeiras de progresso. A crítica não é moralista (no sentido mais chulo do termo), é sociopolítica e acima de tudo, filosófica: é preciso recusar a linguagem fácil e questionar o que está por detrás desta suposta promessa de "libertação!"
Afinal, se a profissão mais antiga do mundo apenas mudou de cenário, não será a hora de repensar não apenas o palco, mas o próprio guião? E, quem sabe, escrever outro tipo de história, onde o corpo não precise de ser mostrado para ser validado, não precise ser vendido para que tenha valor, nem a liberdade confundida com performance para o consumo.
E esse, é o verdadeiro desafio desta nova geração... — João Edgar Silva

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