Existe uma estranha dissonância entre o tempo biológico e o tempo psicológico. O corpo envelhece de forma linear: os anos acumulam-se, a pele muda, a memória ganha camadas, e o calendário avança de forma indiferente. Porém, a vida interior parece não seguir essa mesma ordem cronológica, no interior da psique humana existem zonas onde o tempo parece não passar, e certas experiências, sobretudo as que nos marcaram profundamente, permanecem fixadas numa espécie de presente eterno... justamente por isso, quando um gatilho emocional é ativado em nós, a nossa reação muitas vezes não vem da idade atual, mas sim da idade em que a ferida foi originalmente marcada na psique!
Esta ideia pode parecer, à primeira vista, apenas uma metáfora poética, no entanto, tanto a psicologia como a filosofia oferecem fundamentos sólidos para compreendê-la, procurarei apresentá-los de seguida.
A mente humana não funciona como um arquivo ordenado, onde cada experiência é colocada na gaveta “correta” do passado, pelo contrário, a psique é um campo vivo, onde o passado continua a agir no presente... aquilo que fomos, continua a existir dentro daquilo que somos e seremos.
Na vida quotidiana gostamos de imaginar que o passado está atrás de nós, falamos dele como algo terminado, algo que já aconteceu e que, portanto, já não tem poder real sobre o presente! No entanto, com o passar do tempo e devida reflexão, podemos perceber que esta visão é sobretudo uma construção racional, dado que, na realidade psicológica, o passado raramente desaparece; ele transforma-se em estrutura. As experiências mais intensas da infância, especialmente aquelas ligadas ao medo, à rejeição, à humilhação ou ao abandono, deixam marcas profundas na forma como interpretamos o mundo. Não são “apenas” lembranças, mas dimensões que se tornam lentes através das quais passamos a ver e, a construir a realidade!
Tomemos o exemplo de uma criança, quando esta vive um episódio emocionalmente devastador, é sabido que não possui ainda os recursos cognitivos ou emocionais para o integrar plenamente, o acontecimento fica, por assim dizer, suspenso! E não sendo devidamente compreendido, passa apenas pelo circuito dos sentimentos, aonde a dor é registada, mas não é simbolizada. Como consequência, aquela experiência permanece num estado latente dentro da psique. Anos mais tarde, décadas até, quando algo no presente se assemelha à situação original: seja um tom de voz, um olhar de desaprovação, uma rejeição subtil... a emoção logo volta a emergir com uma intensidade inesperada. A pessoa pode ter 25 anos, 50 ou mesmo 80, mas naquele preciso instante, reage como se tivesse novamente 6, 8 ou 10. O corpo adulto torna-se assim palco de uma emoção infantil que nunca foi verdadeiramente elaborada, e a este respeito, jamais cortamos laços com o passado! Não se trata de regressão no sentido vulgar da palavra, mas de uma espécie de coexistência de tempos psicológicos.
A psicologia profunda descreveu muitas vezes o fenómeno (da criança que continua dentro do adulto) através da ideia da “criança interior”. E embora a expressão tenha sido popularizada em contextos terapêuticos relativamente contemporâneos, a sua raiz é mais antiga e encontra eco em várias tradições psicológicas e filosóficas. O ser humano não se constrói por substituição de identidades, mas por acumulação, ou seja, o adolescente não “elimina” a criança; e o adulto, por sua vez, igualmente não o faz em relação ao adolescente que foi... cada fase da vida deixa sedimentos dentro da personalidade. Assim, a criança que fomos, como o adolescente, continuam a co(existir) dentro do adulto que nos tornámos.
Disto isto, essa criança interior não é apenas memória, ela é também emoção viva. Quando as experiências infantis foram marcadas por cuidado, segurança e reconhecimento, essa presença interior torna-se uma fonte de vitalidade e espontaneidade. Mas quando foram marcadas por abandono ou trauma, essa mesma presença transforma-se numa zona vulnerável da personalidade.
Por isso, certas reações emocionais parecem desproporcionadas, na medida em que não correspondem à gravidade objetiva da situação presente. O que está a reagir não é apenas o adulto racional, mas também uma parte muito mais antiga da psique, ainda impregnada pela intensidade do acontecimento original.
A palavra trauma tem a sua etimologia no grego antigo “traûma” ou “traumat-”, que significa literalmente “ferida”, “dano”, “lesão”. Todavia, ao contrário de muitas feridas físicas, as feridas psicológicas não cicatrizam simplesmente com o passar do tempo, em alguns casos, o trauma funciona quase como um congelamento temporal da experiência emocional!
Quando um evento é demasiado intenso para ser processado pela mente naquele momento, como pode acontecer em caso de negligência, violência, abuso ou humilhação profunda, o sistema psíquico entra num modo de sobrevivência! A prioridade deixa de ser compreender e passa a ser suportar!
Aquilo que não pode ser assimilado é, de certo modo, colocado em suspenso, mas aqui suspenso não significa resolvido, significa apenas que a mente encontrou uma forma de continuar a funcionar apesar da dor da ferida.
É por isso que o trauma tende a repetir-se na vida psíquica, não necessariamente sob a forma do mesmo evento, mas sob a forma da mesma emoção. Situações aparentemente banais podem ativar respostas emocionais intensas, exatamente porque tocam naquele ponto congelado da experiência (abrindo uma caixa de pandora!)
Dessa forma, o adulto que reage com uma raiva explosiva a uma pequena crítica pode, na verdade, estar a reagir a algo muito mais antigo: talvez anos de desvalorização ou humilhação vividos na infância. A pessoa que sente pânico diante de uma pequena distância emocional num relacionamento pode estar somente a reviver o abandono precoce que nunca conseguiu compreender.
Ou seja, a emoção atual é apenas o eco de uma emoção antiga que nunca encontrou um lugar onde repousar...
E embora muitas vezes pensemos o trauma como algo estritamente individual, ele possui também uma dimensão social, falemos ora pois na dimensão sociológica da ferida, sabendo de antemão que as famílias, as culturas e as estruturas sociais participam ativamente na formação das feridas psíquicas.
Uma criança cresce dentro de um mundo simbólico que lhe ensina o que é aceitável sentir e o que deve ser reprimido. Em certos contextos culturais, expressar tristeza pode ser visto como fraqueza. Noutros, expressar raiva pode ser proibido. Em muitos ambientes familiares, a criança aprende que certas emoções simplesmente não têm lugar!
Quando isto acontece, a criança não deixa de sentir essas emoções, oh não... apenas aprende a escondê-las, muitas vezes até de si própria! Mas como sabemos hoje, aquilo que é reprimido não desaparece; transforma-se em tensão interna!
Assim, as reações emocionais que parecem irracionais podem ser compreendidas como manifestações tardias de conflitos que foram socialmente silenciados. O indivíduo carrega dentro de si não apenas a sua história pessoal, mas também as expetativas e repressões do meio em que cresceu. Desta forma, cada gatilho emocional é também um ponto de encontro entre biografia e cultura.
Se pensarmos nestas dimensões à luz de Freud, julgo não estar engando dizendo que ele veria aqui quase um retrato exemplar do funcionamento da psique humana, sobretudo do papel da repressão e da formação do inconsciente.
Para o psicanalista, a criança não nasce com um código moral interno plenamente formado. Esse código vai sendo construído à medida que a criança interioriza as normas, proibições e expetativas do meio, aquilo a que chamou mais tarde o “superego”. É precisamente esse mundo simbólico: família, linguagem, autoridade, cultura... que moldam o que é aceitável sentir e expressar.
Quando uma emoção é considerada inaceitável: como a raiva contra os pais, a tristeza profunda, ou certos desejos, a criança não a elimina. Em vez disso, ocorre o que ele designou por repressão: a emoção é empurrada para o inconsciente, deixa de ser acessível à consciência, mas, ainda assim, não perde a sua força, pelo contrário, continua ativa, procurando outras formas de expressão!
É aqui que penso convergir diretamente com a teoria freudiana, ao afirmar que o reprimido não desaparece, transforma-se!
Segundo o pai da psicanálise, essas emoções reprimidas reaparecem de forma indireta: em sintomas de ansiedade, angústia e somatizações; comportamentos aparentemente desproporcionados; ou ainda por exemplo, lapsos, sonhos e reações emocionais intensas.
Ou seja, aquilo que parece “irracional” no presente pode ser, na verdade, profundamente lógico, mas lógico à luz do inconsciente, não da consciência.
O mesmo certamente diria que essas reações tardias são o “Retorno do Reprimido” (Wiederkehr des Verdrängten): o conflito não resolvido na infância, que perdura, e continua a procurar resolução na vida adulta, repetindo-se sob diferentes formas. Daí a sua famosa frase (no artigo de 1917, intitulado «Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise») que diz que: “O eu não é senhor em sua própria casa.” Isto pois existem forças internas que operam fora do controlo consciente!
Freud refere-se ao facto de o ego consciente não ter controlo total sobre a mente, que é largamente influenciada pelo inconsciente. Para um melhor enquadramento da ideia, há que lembrar que ele descreve a psicanálise como a terceira “ferida narcísica” da humanidade, mostrando que a razão não governa totalmente o sujeito. Representando a metáfora da “casa” a psique, onde o inconsciente é o verdadeiro habitante dominante, limitando o poder do ego.
Além disso, Freud acrescentaria algo talvez ainda mais inquietante, muitas dessas repressões não são apenas pessoais, mas estruturais. A própria civilização exige repressão: para que possamos viver em sociedade, somos “obrigados” a conter impulsos, desejos e emoções. Nesse sentido, o mal-estar psíquico não é apenas um acidente individual, mas uma consequência inevitável da vida em comum! E não há como negar que este é, na prática, um mecanismo fundamental da condição humana... tornamo-nos sociais ao preço de nos tornarmos parcialmente estranhos a nós próprios!
Sendo precisamente nesse afastamento, entre aquilo que sentimos e aquilo que nos foi permitido sentir, que nasce essa tensão interna que, mais tarde, se manifesta sob a forma de reações que nem sempre compreendemos, mas que, todavia, vivem dentro de nós!
A filosofia, desde muito cedo, percebeu que o tempo humano não é simplesmente cronológico. O tempo vivido e a interpretação interior possui uma estrutura muito mais complexa. O passado não é apenas aquilo que “já foi”; ele continua a existir na forma como interpretamos o presente e, sonhamos o futuro.
As experiências anteriores moldam as nossas expetativas, os nossos medos e as nossas esperanças. Aquilo que aconteceu uma vez cria uma espécie de antecipação permanente de que poderá voltar a acontecer... mesmo que nunca chegue verdadeiramente a acontecer!
Assim, quando uma pessoa reage emocionalmente a um gatilho, ela não está apenas a responder ao presente. Está a responder à história inteira que vive dentro dela.
Cada ser humano carrega consigo uma espécie de arquivo invisível de experiências não resolvidas, e esse arquivo não está organizado de forma racional, ele é ativado por associações, sensações, gestos e atmosferas. Às vezes basta um silêncio, uma frase ou um olhar para abrir uma porta escondida no passado que julgávamos trancada!
Talvez seja precisamente por isso que os conflitos humanos são tão difíceis de resolver. Visto que, quando duas pessoas discutem, raramente estão apenas a discutir sobre a batata quente que têm em mãos, o assunto visível. Por trás de cada palavra podem estar anos (ou mesmo décadas) de experiências emocionais acumuladas!
Um simples comentário pode ser ouvido como um ataque devastador porque toca numa ferida antiga. Um gesto aparentemente insignificante pode ser interpretado como rejeição porque ativa memórias profundas de abandono. Assim, aquilo que parece uma reação exagerada pode, na verdade, ser perfeitamente coerente dentro da história emocional daquela pessoa e, é tantas vezes nestas pequenas nuances, que vive a incompreensão entre os seres humanos!
Compreender isto exige uma forma de empatia muito mais profunda do que aquela que normalmente praticamos, significa reconhecer que, quando falamos com alguém, não estamos apenas a falar com o adulto presente diante de nós, mas estamos também a falar com todas as versões anteriores dessa pessoa!
Se o passado continua vivo dentro de nós, então a verdadeira maturidade psicológica não consiste em esquecê-lo, mas em integrá-lo. E integrar significa olhar para essas feridas antigas com a consciência e os recursos emocionais que o adulto possui. Aquilo que a criança não conseguiu compreender pode, por fim, encontrar significado...
Esse processo não é simples, na maior parte das vezes exige confrontar emoções que foram evitadas durante anos, continuada e persistentemente, mas é justamente através desse confronto que o passado deixa de dominar o presente de forma inconsciente.
Quando uma pessoa começa a reconhecer os seus próprios “gatilhos”, algo muda profundamente: a reação automática começa a dar lugar à reflexão, o momento de ativação emocional transforma-se numa oportunidade de autoconhecimento.
A pergunta deixa de ser apenas: “Porque estou a reagir assim?” e passa a ser: “Que parte antiga de mim está a ser tocada neste momento?
Uma das tarefas mais difíceis da vida adulta é reconciliar todas as idades que ainda vivem dentro de nós, afinal de contas, não somos apenas a pessoa que somos hoje... somos também todas as “pessoas” que fomos em idades anteriores.
Dentro de cada adulto existe uma constelação de tempos: a criança que procurava amor, o adolescente que procurava identidade, e o jovem adulto que procurava sentido... Quando essas partes permanecem ignoradas, elas manifestam-se através de reações inesperadas e conflitos recorrentes. Mas quando são reconhecidas, adequadamente, podem tornar-se fontes de compreensão profunda!
Nesse sentido, o amadurecimento psicológico não consiste em abandonar a criança que fomos, mas em cuidar dela finalmente com a consciência que apenas o tempo da experiência de vida pode trazer.
No fundo, e já tentando uma conclusão, cada ser humano possui duas idades: existe a idade do corpo, que o calendário regista; e existe a idade das feridas, que apenas a experiência revela. A primeira avança inevitavelmente com o tempo. Já esta segunda, pode permanecer suspensa durante décadas!
É por isso que, quando um gatilho emocional é ativado, aquilo que reage dentro de nós pode não ser o adulto racional que acreditamos ser, mas uma parte muito mais antiga da nossa história.
Compreender isto não significa justificar todas as reações humanas, mas sim reconhecê-las com maior profundidade. Significa perceber que, por detrás de muitas emoções intensas, existe simplesmente alguém que, em algum momento da sua vida, foi profundamente ferido e nunca teve oportunidade de compreender plenamente essa ferida, e como tal, ela nunca teve o tratamento adequado ou, tempo de sarar!
Na opinião deste autor, a verdadeira maturidade não reside em tornar-se imune às emoções, mas aprender a escutar as vozes antigas que ainda falam dentro de nós... porque no silêncio da nossa vida interior, o passado raramente está morto, muitas vezes, ele apenas espera o momento certo para voltar a ser/ter sentido!
— João Edgar Silva
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