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Auschwitz: entre as cinzas do inferno e o silêncio de Deus!

Certas perguntas não procuram resposta concreta, definitiva, procuram apenas não enlouquecer no silêncio... e talvez seja por isso mesmo que doem tanto! Visto que não nascem da curiosidade teológica, mas do espanto moral, da náusea existencial perante um mundo onde o sofrimento ultrapassa qualquer arquitetura de sentido compreensível.

Se os judeus suplicaram a Deus — e, não se duvide, suplicaram em todas as línguas possíveis e imaginárias da dor —, como pôde Ele não ter escutado? Como pôde um Deus que, segundo o próprio texto sagrado, se revela como um “pai vigilante”, “pastor atento” ou mesmo “libertador de escravos no Egipto” permanecer mudo diante das câmaras de gás? Como pode o Deus que “escuta o clamor do seu povo” ter fechado os olhos e tapado os ouvidos quando esse clamor se tornou um grito metódico, industrializado, contínuo e absolutamente incontornável? E mais, falavam eles a mesma língua que o seu filho, rezavam ao mesmo Pai, invocavam as mesmas promessas... e, ainda assim, nada! Nenhum sinal, nenhuma interrupção do mal, nenhuma mão estendida vinda do céu...

Na opinião deste autor, o problema do Holocausto não é apenas político, histórico ou, sequer de ordem da moral humana. É, acima de tudo, um problema teológico insuportável! Um escândalo metafísico. Um rasgão irreparável na ideia tradicional de Deus. E depois de Auschwitz, penso que perguntar “aonde estava Deus?” já não constitui blasfémia; pelo contrário, é uma obrigação ética incontornável. Senão vejamos, o silêncio de Deus, aqui, não é um silêncio qualquer, não é o silêncio pedagógico, de quem espera maturidade, é um silêncio absoluto diante do extermínio, que não explica, não consola, não redime... um silêncio que, para o comum humano, é inconcebível! Porque se Deus é omnipotente, podia ter impedido. Se é omnisciente, então sabia. E se é bom, devia ter agido. Este é o triângulo impossível, e o Holocausto, coloca-o em chamas vivas!

Alguns tentam salvar Deus sacrificando o homem: “Foi o livre-arbítrio...”, argumentam. Como se a liberdade humana pudesse ser o neutralizador que explicasse a passividade divina! Quer dizer, sendo assim, tudo é culpa do homem, nunca de Deus, e foda-se! Sim, eu disse isso mesmo... Mas que livre-arbítrio é esse que se exerce sobre crianças, mulheres, minorias, velhos, corpos famintos, em suma, vidas reduzidas a números!? Que liberdade é essa que transforma o outro em coisa, em lixo, em matéria descartável? E, sobretudo, que Deus é este que assiste à perversão máxima da liberdade sem sequer intervir para travar a vertigem, o abismo, o caos, a completa escuridão no mais profundo recanto do ser!?


Um aparte a este respeito, que ninguém ouse julgar, nem por um único segundo, que este vosso autor escusa a mão humana de tudo o que se passou no Holocausto. Até porque, ao contrário do que pensávamos quando eramos crianças temendo “monstros”, ao crescer, percebemos dolorosamente que os monstros somos nós, sempre fomos nós! E o único “monstro” que me causa medo, é o monstro humano! Pois só ele consegue racionalizar a sua maldade e naturalizá-la com afeto, a sua crueldade não é instinto, é escolha. Na medida em que, o animal mata por fome, já o homem, mata por ideias e ainda exige gratidão... E nenhum, nenhum monstro é tão perigoso quanto aquele que sorri ao fazer o mal, acreditando fazer o bem!


Continuando... outros tentam salvar Deus sacrificando a razão: “Os desígnios de Deus são insondáveis.” “Deus escreve certo por linhas tortas.” “O futuro só a Deus pertence.” Mas nestas respostas, não se encontra lógica; somente fé, pior, abdicação de pensamento! Pois equivale a dizer que o mal absoluto tem um sentido oculto e, que não pode (ou não deve) ser explicado, e isso meus caros, é porventura ainda mais cruel. Dado que transforma o sofrimento extremo numa peça de um plano maior, como se os mortos de Auschwitz fossem instrumentos de uma pedagogia divina que ninguém compreende, mas que, de algum modo, devemos aceitar porque: “Tinha de ser assim.” “Estava escrito.” “É uma lição divina para os homens.”

Contudo, a questão persiste, impõe-se, sem recuar, aceitar o quê, exatamente? Que milhões de seres humanos tenham sido reduzidos a cinzas para cumprir um mistério? Que o sofrimento seja moeda teológica? Que a dor seja necessária para que Deus seja Deus? Para que o destino se cumpra? Para que o homem se cumpra como “pecador?” Aqui, a fé deixa de ser virtude e torna-se violência simbólica.

A pergunta mais honesta talvez seja esta a meu entender: que sentido existencial pode haver em sofrer tanto, sem razão aparente, senão para o prazer do outro, senão para ser a merda da qual o outro limpa a bota? Onde está o valor redentor, quando o sofrimento não conduz a nada, não ensina nada e não salva nada nem ninguém? Quando apenas magoa, destrói e mata?

A tradição cristã fala do sofrimento como via de redenção, da cruz como lugar de salvação. Mas há sofrimentos que não crucificam para ressuscitar; apenas matam! Há dores que não elevam; esmagam! Há horrores que não transformam; somente anulam... e nada mais!

E é aqui que Deus se torna um problema ético. Porque um Deus que exige tudo de nós: fé, obediência, sacrifício, submissão... e nada oferece em troca quando o inferno se instala na terra, é um Deus que já não pode ser amado, apenas temido! É um Deus que se funda no medo, nada mais que um tirano metafísico.

Que Deus é este que castiga a humanidade pelo “pecado original”, fruto de uma obra mal feita? Que cria seres falíveis e, depois os condena por falharem? Que coloca uma árvore no centro do paraíso e, depois se indigna quando o humano age como humano? Não será este Deus o verdadeiro irresponsável ontológico, aquele que cria o problema e pune a consequência? Aquele que arquiteta o mundo e seu destino, mas assim que a “obra” começa a ruir, se retira de cena, somente para começar a apontar dedos, distribuindo culpa por tudo e todos!

E não é no mínimo curioso como dentro do texto sagrado Deus é tudo: criador, pai, pastor, juiz, redentor. Porém, fora do texto, quando mais se precisa, Ele não aparece: não fala, não interrompe o horror, não mostra, nem por um instante mínimo, que é realmente aquilo que diz ser.

E talvez seja esta a ferida irreparável: Deus funciona quase perfeitamente no discurso, enquanto conceito, mas falha tragicamente na realidade. No papel, é bondade, é amor. Na história, é ausência, sonho, delírio!


Depois de Auschwitz, talvez a única teologia honesta seja aquela que admite isto: se Deus existe, Ele falhou... tenhamos coragem de o dizer com todas as palavras! Ou, no mínimo, retirou-se. Morreu... Em última instância, nunca foi aquilo que pensamos.

Talvez o silêncio de Deus não seja um mistério a decifrar, mas um facto a aceitar, com todas as suas consequências devastadoras. Talvez Deus não seja o fundamento do sentido, mas o seu maior problema. E talvez a dignidade humana comece precisamente quando recusamos justificar o injustificável, mesmo em nome do divino.

Se há algum sentido a salvar, talvez esteja apenas aqui: na recusa em aceitar que o sofrimento absoluto tenha um sentido superior. Na recusa em transformar vítimas em argumentos. Na decisão de colocar o humano acima de qualquer teologia.

Porque se Deus exige tudo, e nada oferece em troca, talvez não seja Deus... talvez seja apenas uma ideia poderosa demais para ser abandonada, mesmo quando já não explica, não consola, não salva.


E, no fim, talvez a pergunta mais radical não seja “onde estava Deus?” Talvez a maior blasfémia não seja negar Deus, mas absolvê-lo. Talvez o verdadeiro sacrilégio seja precisamente insistir em salvá-lo quando Ele já não salva ninguém. Porque cada tentativa de justificar o silêncio divino, acrescenta uma nova camada de violência às cinzas que ainda fumegam na nossa memória histórica!

Depois de Auschwitz, Deus já não pode ser inocente! Pode existir, pode não existir (isso é outra conversa) — mas, se existe, está implicado. E se não existe, então a responsabilidade é inteiramente nossa, sem desculpas celestes, sem tribunais transcendentais onde possamos apelar. Em ambos os casos, algo muda para sempre: o humano fica sozinho com o humano!

Talvez Deus não tenha falhado; talvez tenha sido desmascarado. Talvez nunca tenha sido o garante do bem, mas apenas o último refúgio de uma humanidade incapaz de aceitar o vazio. E quando o vazio finalmente se impôs, já não havia voz no céu — apenas o eco das nossas próprias justificações morais a ruírem.

E se ainda há dignidade possível depois de tanto horror, ela não está em encontrar sentido no sofrimento, mas em recusá-lo. Não em venerar o silêncio, mas em denunciá-lo. Não em esperar por Deus, mas em impedir que o homem volte a tornar-se “deus do extermínio!”

Talvez o único mandamento que reste, depois de tudo, seja este: nunca mais permitir que o nome de Deus seja usado para explicar aquilo que nenhum Deus, jamais, deveria permitir. Porque quando o divino exige que calemos a consciência, já não é sagrado, é cúmplice.

E se Deus continua em silêncio, então que esse silêncio pese. Não como mistério, não como prova de fé, mas como acusação eterna! Não unicamente contra o homem, mas contra a ideia de um Deus que pediu tudo… e, no momento decisivo, não esteve em lado nenhum!


Como sempre, não ofereço respostas, sabem que não é meu apanágio... apenas me junto a todos vocês, para questionar o porquê das coisas, e tentar fazer sentido desta coisa chamada viver.


Em honra das vítimas do Holocausto ✡️



— João Edgar Silva

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